“um sítio onde pousar a cabeça”

Neste Verão gastei uma tarde em turista desavisado, ignaro dos places to see e das things to do na mui nobre e sempre invicta. Deambulei fascinado com a mudança fervilhando em redor. Em todas as ruas vitrinas recentes, anúncios de alvará de construção, gruas, muita espuma, muita coisa fora dos sítios onde as lembrava e lojistas que começam por saudar em inglês.
Ser emigrante passa também pela tragédia de constatar que cidade evolui quando não estamos a olhar. Eu já não a olho com atenção há uns 10 anos. De cada vez que retorno, acabo no mesmo metro quadrado com os rostos que se mantêm como bairros meus e que envelhecem comigo, sem a aleivosia da modernidade, e me transmitem uma enganadora impressão de segurança.
Mas eis-me então no Porto, no Agosto deserdado das amizades, condenado ao papel de turista incidental, a cabecear contra azulejos metidos à força em fachadas renovadas, negócios mais estranhos que retrosarias, ainda que mais próximos das minhas necessidades que as ditas. Eu padecendo do choque de me surpreender chocado diante de ocupações cujo interesse me ultrapassa, o spleen do emigra a levar-me pelos caminhos da esperança, até ao abrigo de alguma porta conhecida. Cheguei-me assim a uma particular fachada em vias de ser. Os interiores em repintura, os exteriores já com uma placa de grafismo alambicado substituindo letreiro antigo. Na fuga apressada a que o susto me levou, percebi “lollipops” e “hot-dogs” ou pesadelo de igual gabarito. Estava isto escrito no começo da rua dos mártires da liberdade. A “rua dos homens casados”, diria o Sr. Nuno Canavez com ar de gozo na livraria Académica, por trás dessa porta pequena demais por cima da qual julgo ter lido esse “lollipops” de mau agouro.
Não há muito, o Sr. Nuno Canavez passou-me um volume encadernado para as mãos. Disse “veja lá isso, é uma primeira edição do Eça”. Eu cheio de medos a segurar a capa de pele. “Está a ver?” – eu, nada – “falta-lhe a folha de guarda. Vai ser o caralho agora para vender isto”.
Queixava-se muito, o Sr. Nuno Canavez, de como isto tudo muda. Tinha aquela verve rezingona sobre o presente que me parece comum em quem lida com o passado. Não lhe ouvia discursos nostálgicos sobre o antigamente (antes pelo contrário, era menino para perorar agitado sobre esses “filhos da puta dos pides”, por exemplo), mas uma reflexão amarga de quem antecipa a canalhice e os efeitos secundários das decisões que nos infernizam a vida.
A Académica estava condenada a fechar. Vendia objectos que só interessam a quem lê – os livros em segunda mão – e prazeres para gente maníaca com dinheiro e leitores fetichistas – os livros antigos – cujo comércio já não precisa de um botequim com vitrina para a rua.
Também não consta que o Sr. Nuno dominasse os segredos da imortalidade, pelo que a história do fim estaria mais ou menos escrita. Já o folhetim do recomeço tinha múltiplas possibilidades. “Hambúrgueres e saladas” seria apenas uma das hipóteses, cujo carácter alérgeno só decorre da memória de quem ali viu outra coisa tão outra, tão mais essencial, não por de livros tratar, mas por aportar um quinhãozinho de singularidade que os “lollipops”, por muita pós-modernidade em que venham fritos, não terão.
Quem comigo não partilha a memória da Académica e do Sr. Nuno Canavez, ou simplesmente prefira cachorros quentes a primeiras edições (quem sou eu para hierarquizar mostardas?) poderá reclamar do meu desgosto que ele é individualista, uma tristeza de intelectual burguês privado de um spot para flanar. Terá alguma razão, porém, o que reclamo neste obituário, é a substituição de um lugar que contribuía para a vitalidade da urbe (no largo prazo) por uma modernidade bacoca que é novidade apenas por ocupar um espaço que antes oferecia outra coisa.
Diante daquela fachada em renovação, metonímia da cidade a travestir-se, fui-me abaixo por todas as perdas, e, como nas palavras do Manuel António Pina, ansiei pelo lençol onde esconder-me da cachorrada ladrando na noite.
Lugares da Infância
Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.
Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?
Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.
O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.
Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.
A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
Manuel António Pina, em Um sítio onde pousar a cabeça