vermelho

(no subject)

Disseste-me que sonhaste com uma frase que escrevi. E essa frase dizia coisas sobre uma ternura que sufoca como se cabelos enforcassem um pescoço. Lembro-me desse carinho violento de te tentar salvar de todas as madrugadas. Mas nunca antes me haviam dito que era possível sonhar com uma frase. Com a ordem fácil que dei às palavras difíceis. Não aprendi a dormir e pouco sei de sonhar, dirias. Dessas aguarelas, sei apenas que continuo a sonhar com o salto dessa janela que toca os ramos dos plátanos. Repetidamente essa janela, atravesso e caio, em silêncio absoluto, sem palavras, os meus sonhos, sem fonemas ou oclusões. Somos diferentes no número de sílabas necessárias para nos esgotar o ar do peito. Mas todas as noites, deito-me em mergulho livre e perco o ar a rezar baixinho para que não esqueças a tua apneia. 07/09/2010
vermelho

sycamores

Precisavas de uma parede branca em frente à secretária, apenas isso. Dias seguidos, vi-te sentada nesse vazio e tentando interromper-te, ou fazer-me notar, ia mudando as flores da jarra que inventei para essa tua secretária, à medida que as flores e eu nos íamos curvando sobre ti, era assim que escrevias, sentada em frente a uma parede vazia. Três anos depois, as tuas mãos pararam de se mover, disseste-me "Tanta parede para tão poucas palavras!", indignada. Suspeito que foi quando deixaste de escrever a minha história que morri. Desde aí calaste-te profunda e aquosamente. De ti só soube passados muitos anos, quando da minha janela, certa manhã, vi dois pássaros pousados no plátano. Desde esse momento, todos os dias dois pássaros voavam das tranças do teu cabelo para me guardar. Ou assim preferi acreditar. Mas nunca mais ouvi a tua voz na ressonância da cozinha, ou murmurar enquanto dormias. Deixaste-me quando abandonaste também as palavras, e por vezes, sozinho à janela penso "tão pouco amor para tanta saudade, Margo.".